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MOSTRA

Mostra Brasil

Curadoria: Luciana Oliveira e Algrin David

É com o mote de Memória e Futuridades, tema da terceira edição do FIANb, que a curadoria brasileira formada pelo crítico e cineasta Algrin David e pela realizadora e pesquisadora Luciana Oliveira, cumprem a difícil tarefa de selecionar obras que possam apresentar imagens do passado e do presente para provocar uma reflexão coletiva sobre o futuro que queremos construir.

A memória é a única alternativa para os que não querem cometer os mesmos erros do passado. Do ponto de vista coletivo, é onde podemos meditar e buscar caminhos para continuar avançando e inscrevendo outras possibilidades para nós e os que virão depois. É onde buscamos informação sobre quem somos e porque estamos onde estamos, e nos permite pensar em oportunidades de existência para o futuro. Assim, as condições do agora e nossos repertórios acumulados operam como ideias-força na viabilidade do “para onde vamos”.

 

Também há no rememorar a chance de se descobrir outras bases sociais e fragmentos de constructos civilizatórios originários apagados ou invisibilizados por esse ou aquele projeto hegemônico de poder que no passado pareceram vigorosos, mas que se encontram em crise no momento atual. Arriscado movimento, mas muito bem-vindo em tempos de desenlace social e perda de referências, pode trazer bons lampejos de futuro e de recomeços para os oprimidos no agora.

 

Em “Acalento, reminiscências e riso”, primeira sessão, nossos trabalhos de abertura dos caminhos para a mostra como um todo abraçaram a diversidade estética e temática como tônica central. Iniciada nesse movimento, o alagoano Namorador dirigido, por Allexandrëa (AL), desperta nossos sentidos para um símbolo das tradições locais e do festejo através da dança e de um primor gráfico e poético extremamente vigoroso. Na obra que sucede, Tributo a Januário Garcia, codirigido por Filó Filho e Gabriele Roza (RJ), a impactante e detalhada imersão fílmica na obra de um dos personagens mais marcantes da história da memória fotográfica negra, resgata com imenso respeito o legado desse personagem sem abrir mão do carinho e da proximidade de uma conversa com um velho amigo. Geruzinho, com a direção Juliana Teixeira, Luli Morante e Rafael Amorim (SE), acompanha relatos entre as esquinas e ruas do bairro Cirurgia em Aracaju, enobrecendo a riqueza musical, artística e ancestral dos percursionistas e agitadores culturais sergipanos do bloco afro Descidão dos Quilombolas. O encantador “Açaí”, de André Catuária, é magistral na condução de uma narrativa visualmente potente e repleta de humor e espirituosidade e fecha nosso programa mostrando que cinema feito para e com as pessoas negras e de periferia também pode ser fonte de riso e leveza.

 

A sessão “Palavras e saberes de afeto” é construída no canto e na oralidade. É com o clipe Iemanjá de Lari Lima, dirigido por Lucas Cachalote (SE), que enaltece a afro-religiosidade brasileira como meio de cura e contato com os nossos ancestrais, que abrimos a segunda sessão desta curadoria. Nela reunimos também memórias negras que partem do pessoal para o coletivo, apresentando histórias que marcam territórios negros, como OuvidoChão - Identidades Quilombolas de Gabriel Muniz (RS), Eu tenho a palavra de Lilian Solá Santiago (SP) e De tudo um pouco sabia costurar de Yérsia Assis e Felipe Moraes (SE). Filmes de espaço-tempo distintos que nos permite conhecer um pouco mais da história negra no Brasil, narrado por vozes negras e sob o olhar do negro. Esses realizadores ouvem atentos o saber ancestral transmitidos pelos griôs eternizados nos filmes. Compartilhamos com o público também, uma dose de amor singelo com o filme O dia que resolvi voar da cineasta Naira Évine (RJ), que é sobre a liberdade de existirmos em nossas negritudes e sexualidades, e viver a vida que queremos viver, apesar de tudo.

“Erês no mundo, infâncias possíveis” é uma sessão infantil em que refletimos o lugar das infâncias pretas como fontes de inspiração e sorrisos. Olhar para essas infâncias nos permite encontrar as nossas crianças negras interior, abraçá-las e cuidá-las, um encontro potente e valioso para nós adultos negros e um momento de festa para as crianças negras que poderão assistir a esses filmes.

A criança, quase que por si só, em diversas comunidades históricas são signos do espírito impulsionador e de frescor para o futuro, como nossos erês no mundo também demandam mananciais de afeto e cuidado no terreno das audiovisualidades. A partir dessa reflexão é que reunimos as seguintes obras: Ewè de Òsányin: o segredo das folhas de Pâmela Peregrino (BA) animação que brinca enaltece os seres encantados das florestas e nos permite minutos de fantasia e entendimento de que nunca, nunca estamos sós, que há algo maior que segue com a gente e nos olha com cuidado. Maalun de Luisa Copeti (RJ) e O véu de Amani de Renata Diniz (DF) nos apresentando a diversidade na infância e a importância da compreensão da diferença e do respeito a elas desde a mais tenra infância.  E completamos com um sabor de aventura que mora na infância por meio dos filmes 5 fitas de Heraldo de Deus e Vilma Martins (BA), Corre de Sidjonathas Araújo e Carolen Meneses (RJ).

 

Nesta direção, memória política, familiar e de comunidades tradicionais, diversidade de gênero, sexualidade, territorialidade e referenciais positivos de infância foram pilares importantes em nosso percurso curatorial. Entendemos, assim, que não há futuro sem intencionalidade e projetos de imagem que plasmem nas telas concretas e imaginárias futuridades no agora, e que é preciso uma consciência política de que um futuro melhor precisa ser construído por diferentes mãos, olhares, falas, ritos e corporeidades.

Programa 01

Tributo a Januario Garcia, de Filó FIlho e Gabriele Roza - RJ (34m20s)
Açaí, de André Catuária - AM (18m40s)
Geruzinho, de Juiana Teixeira, Luli Morante e Rafael Amorim - SE (14m)
Namorador, de Allexandrëa - AL - (07m11s)​

Programa 02

​Lari Lima - Iemanjá, de Lucas Cachalote - SE (05m)
OuvidoChão - Identidades Quilombolas, de Gabriel Muniz - RS (15m)
Eu tenho a palavra, de Lilian Solá Santiago - SP (25m)
O dia que eu resolvi voar, de Naira Évine - RJ (08m)
De tudo um pouco sabia costurar, de Yérsia Assis e Felipe Moraes - SE (24m)

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